Quem disse que é preciso um partido para se fazer democracia?

Divinópolis na Rua
As manifestações populares que ocorreram nas últimas semanas no Brasil, pautam urgências de diferentes setores do país, ampliando o movimento político popular traduzido ou não em diferentes bandeiras, que leva a uma atuação conjunta pelo fim último de interesse cidadão. Quem disse que é preciso um partido para se fazer democracia?

A presidenta Dilma Roussef, durante seu discurso na semana passada, lembrou a todos que nem governo, nem sociedade podem aceitar que uma minoria violenta e autoritária destrua o patrimônio público e privado. Penso neste princípio para além do foco que ela pretendia dar (gastando pobremente metade do seu tempo total de aparição em cadeia nacional) à minoria que reage com violência pelas ruas do Brasil hoje. Preferia haver visto reconhecido o fato de que uma outra minoria vem, há tempos, destruindo não apenas estas classes de patrimônio mas também, e fundamentalmente, uma outra entendida como patrimônio espiritual e imaterial. Em minha inocente utopia, imagino que ela poderia até mesmo tê-lo descrito: o enriquecimento dos homens de poder, pela Dignidade roubada do povo.

Nem todos somos ainda capazes de entender e agir a partir do fato de que a humanização apenas se reconstruirá pela tomada de consciência dos mais excluídos ou oprimidos que se reconhecem como portadores únicos de um saber capaz de verdadeira mudança, não apenas em favor de si mesmos mas de toda a sociedade.   Não somente como brasileiras e brasileiros, mas como seres humanos, temos que aprender a identificar e corrigir o fato de que o impulso da reação de violência física, neste caso, é parte irracional e destrutiva da revolta daquele que reconquista finalmente seu espaço de expressão, levando-o a repetir idêntica violência em distintas direções, pois sente que só assim terá sua força reconhecida ou algum direito garantido. O momento em que se possa falar sobre o tema com honestidade e real interesse de mudança, admitiremos todos nossa responsabilidade neste processo, recuperando estes espaços legítimos de atuação e participação, receptivos a trabalhar o desafio do diálogo aberto e inclusivo, atento aos distintos pontos de vista e à valorização de cada experiência humana singular. Com tudo isto, é ainda a atitude da maioria brasileira, hoje buscando formas de protesto mais inteligentes, na medida em que fortes e pacíficas, a merecer foco, reconhecimento e apoio de verdade. Senhora presidenta, seus dez minutos de discurso teriam sido muito mais construtivos e diretivos, se este tivesse sido o seu foco, ao invés das desculpas e informações equivocadas na tentativa de   esquivar-se de tantos erros acumulados, desde   o indecente orçamento da Copa da Mundo (claro que comprometendo verba pública; sabe-se lá quanto, quando ou como o setor privado retornará os empréstimos dados pelo governo) até a redução das tarifas de transporte público.

“Quero gritar na próxima esquina… a minha dor está na rua… calar a boca nunca mais… O povo novo quer muito mais do que desfile pela Paz”, canta Tom Zé em sua recente composição sobre as manifestações. Este povo novo centra sua força pela conquista de uma democracia que implica, inegavelmente, sua posição participativa e protagonista e não mais passiva e delegativa. Deseja ser parte ativa das decisões do governo pois não quer aceitar outro   caminho que não seja o da transparência e o da não corrupção. Ainda queremos crer que um dia o Estado estará a altura para receber-nos..
(Cíntia de Carvalhaes- 7/2013)

One thought on “Quem disse que é preciso um partido para se fazer democracia?

  1. Pingback: Who Says You Need Political Parties to Have Democracy? | Together in Dignity

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